Na ponta da língua

Na semana que passou, avançamos mais algumas léguas em direção ao consenso sobre a reforma em nossa língua pátria. É um assunto da maior importância para todos os falantes, mas especialmente para os "ensinantes". A esse respeito, apresento a seguir um texto pra lá de bem-humorado do advogado catarinense Marcílio Krieger, postado em uma das listas do Centro Esportivo Virtual (copidescado e publicado aqui com a autorização do autor).

O que parecia se não impossível, pelo menos difícil, aconteceu: a reforma ortográfica foi aprovada pelo Conselho de Ministros lusitanos (ou seria o lusitano Conselho de Ministros? A questão é saber quem é lusitano, se o Conselho - neste caso, usar-se-ia o singular – ou os Ministros. A outra possibilidade é serem todos lusitanos, um e outros. É o que eu acho). E a dita cuja aprovação já foi encaminhada ao Congresso lá deles para homologação.

Quem já ouviu um cabo-verdiano, um santomense, um guinéu, um moçambicano ou um timorense, há de convir comigo que essa reforma vem mesmo a calhar, ó pá! Mas ficará restrita a algumas áreas da ortografia, de modos que os da Terrinha continuarão a chamar vestiários de balneários, gol de golo, camisa de camisola etc.

O sumiço do trema não será, estamos certos, uma grande perda. A queda do hífen produzirá um certo ganho de tempo assim que nos acostumarmos a não usá-lo. Com o escanteio do acento diferencial, “pára” se escreverá “para”, de modo que aquela música Pára Pedro, Pedro para, vai perder um pouco do duplo sentido. No futebol escrito, a falta desse acento poderá trazer alguma confusão: quando o professor escrever na lousa que o Zé Capixaba deve ir para a lateral e falar pro zagueiro "pára o atacante", estaremos próximos de uma hecatombe: o Zé pára o lateral e o becão vai ficar sem saber o que fazer...

O circunflexo levou um chapéu e perderá sua função circunflexional nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo de alguns verbos e em palavras terminados em hiato "oo". Você não crê? Não importa, eles creem... Mas, cá entre nós, mal superamos a crise aérea e lá vêm (esse continua) eles a nos assombrar com esse voo sem acento... Mas sem assento pode... E não pode redundar em acidente? Bom, deixo a preocupação para o pessoal das asas-deltas, CPIs e afins, que isso já está me dando enjoo.

Nem o agudo foi poupado nessa. Ficou impedido de atacar os ditongos abertos e palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos precedidos de ditongo. É de uma simplicidade que você não faz ideia. Mas só vou me tranqüilizar, contudo, quando souber reconhecer um ao me deparar com ele, embora creia que seja uma espécie de porta por onde o tal acento costuma escorrer-se, circunflexo, nos momentos graves. Ou uma jogada-ensaiada na qual o ala serve ao meia-atacante uma redonda certinha, na entrada do retângulo defensivo oposto, e o ponta-de-lança, jogando aberto, surpreendendo a todos, completa com uma chilena para o arco adverso, ditongo, assim, a vitória das cores rubro-grenás.

Mas nem tudo são perdas: a reforma reconduz formalmente ao alfabeto as letras “k”, “w” e “y”. O que não representa, para a nação brasileira, grande novidade. Afinal, estas letrinhas nos acompanham gramados adentro e arquibancadas afora, seja na grafia dos nomes dos jogadores (cujas mães são noveleiras juramentadas) seja na fonética das manifestações do público em relação principalmente aos árbitros (cujas mães são umas santas).

A reforma, como ela é, você acompanha no site da Folha.

4 comentários:

Christian Munaier disse...

Olá Cláudia. Muito interessante seu blog e sua "cruzada" pela educação física e infantil. Virei aqui sempre. Um beijo.

SANDRO e JACI disse...

PARABÉNS pelos seus projetos!!!! Sou licenciada em Educação Física, mas dps de 6 meses de formada vim para Portugal, lecionei de 1ª a 4ª séries apenas esses meses(julho a dezembro de 2002) e estava com um projeto para iniciar caso ficasse por lá (Paraná), que abrangia o desenvolvimento da cça em sua totalidade. Todas as brincadeiras seriama direcionadas conforme a necessidade das cças. Na minha dissertação usei testes, que através dos resultados poderíamos detectar essa necessidade, e a partir daí, faz-se os planeamentos das aulas. Nós temos que gostar do que fazemos e vc é uma pessoa que realmente se importa com os pequeninos!!!
Um abraço!!!

Cláudia disse...

Obrigada, colegas.
Continuem participando!

Maria Helena disse...

Muioto boa a crônica!